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Negro atrevido

  • Foto do escritor: Charles Alcantara
    Charles Alcantara
  • 3 de jul. de 2018
  • 2 min de leitura

Atualizado: 4 de jul. de 2018

Por que fascistas, patronato e grande imprensa costumam acusar lideranças sindicais e populares de brigões, baderneiros, vagabundos?

O Mestiço, de Cândido Portinari (detalhe, reprodução)


Para criminalizar a nossa luta e, assim, justificar o uso da violência contra nós.


Primeiro, nos estigmatizam, criminalizam; depois, nos apedrejam, chicoteiam, violentam e matam.

- “Eles estão apenas colhendo o que plantaram”, acusam-nos, para legitimar a violência que nos infligem.

A luta por justiça e direitos ou a denúncia das iniquidades sociais, de fato não se faz sem incomodar aos opressores e exploradores.

Lutar por terra para plantar incomoda aos latifundiários; lutar por moradia incomoda aos especuladores; lutar por educação e saúde pública de qualidade incomoda aos que lucram com a educação e saúde privadas; lutar contra a sonegação e a farra das renúncias e anistias fiscais incomoda aos sonegadores.

Não há caminho de transformação da estrutura social que não passe por intensa e permanente luta dos de baixo, dos pobres, dos socialmente excluídos.


Nenhuma sociedade, antiga ou contemporânea, sofreu qualquer mudança significativa no sentido da redução das desigualdades, sem que os de baixo se insurgissem das mais variadas formas: greves, denúncias, passeatas, ocupações...


Quando os de baixo lutam, os de cima reagem com violência. Sempre foi e será assim. A violência é tanto mais extrema quanto mais ameaçado se encontra o status quo.


Para os antigos senhores de engenho, o escravo insubmisso à escravidão não passava de um negro petulante, atrevido, perigoso.

E haja chicotada no lombo de negro atrevido!

Chicotadas para corrigir e para servir de exemplo.

- “Ele está apenas colhendo o que plantou”, dizia o senhor do engenho de ontem, da mesma maneira que dizem, hoje, a senadora gaúcha Ana Amélia e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.


O escravo das senzalas ainda vive em cada favelado ou periférico das grandes cidades; em cada sem-terra acampado à beira da estrada; em cada sem-teto; em cada criança (ou adolescente) pobre arrancada do seio da família para servir de ama aos filhos de um patrão qualquer; em cada mulher ou homossexual vítimas do preconceito e da intolerância.


O senhor de engenho ainda vive em cada homem branco supremacista; em cada integrante da elite patronal que denega os mais elementares direitos trabalhistas; em cada homofóbico; em cada machista.


Há também o capataz e o capitão do mato, que ainda vivem em cada um dos nossos iguais que não se reconhecem como um de nós, e que optaram por servir aos senhores de engenho. Estes - o capataz e o capitão do mato - deduram, perseguem, capturam, sujam as mãos com o sangue dos “negros atrevidos”.


A maioria dos fascistas que expelem bílis diariamente nas redes sociais e que protagonizaram as cenas de selvageria contra a Caravana de Lula, não passa de capataz e capitão do mato.


A luta dos “negros atrevidos”, de hoje e de sempre, pode ser travada com indignação, mas jamais com ódio.


Não querem, os “negros atrevidos”, imolar ninguém, tampouco eliminar fisicamente quem quer que seja.


Apesar da violência a que estão submetidos historicamente, os “negros atrevidos” não pregam a violência, porque as suas causas, de tão legítimas e urgentes, não lhes concedem tempo senão para não quererem morrer prematuramente e para terem o direito de sonhar com um mundo melhor para os que vierem depois.


 
 
 

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