top of page

Eles nem ganharam a eleição...

  • Foto do escritor: Charles Alcantara
    Charles Alcantara
  • 25 de set. de 2018
  • 3 min de leitura

No próximo dia 31 de dezembro, o PSDB encerra um ciclo de 24 anos no comando político do Estado do Pará.


Desde janeiro de 1995, foram cinco mandatos, com uma breve interrupção de 4 anos (de 2007 a 2010), quando o estado foi governado por Ana Júlia Carepa, do PT.


Sempre me opus ao modo tucano de governar, pelas políticas que privilegia e doutrina que professa.


Na condição de presidente do Sindifisco-PA, de janeiro de 2009 a junho de 2014, tive a experiência de lidar com dois governos distintos, de Ana Júlia e Simão Jatene.

Ciente de que um bom dirigente sindical deve lealdade aos seus representados, jamais misturei a minha posição de presidente do sindicato com as minhas preferências políticas, sem contudo negar a minha identidade ou trair a minha consciência.


Jamais fiz do sindicato um instrumento a serviço das minhas convicções político-ideológicas.


Fiz do sindicato, isto sim, um instrumento de luta em prol dos legítimos interesses da categoria, tendo sempre o interesse público como baliza.


Suponho ter conseguido representar bem a minha categoria.


Postas numa balança as duas etapas da minha passagem pelo sindicato, concluo que, em termos de qualidade democrática, a relação com o governo Simão Jatene foi superior a do governo Ana Júlia.


Tenho o dever moral de declarar isso, sem qualquer receio de ser incompreendido, porque há muito aprendi a lidar com a incompreensão.


Mas nada acontece por acaso, como nada é falado por acaso.


Faço esse reconhecimento público, para exaltar o valor absoluto da democracia, entendida em múltiplos sentidos, tais como: capacidade de convivência com as diferenças, respeito às minorias, igualdade de oportunidades, tolerância, solidariedade.


No exercício da minha oposição política aos tucanos, não fui leviano, desonesto ou oportunista. Por outro lado, reconheço, não fui perseguido ou caçado pelos governos do PSDB.


A diferença fulcral entre um regime democrático e um regime ditatorial está exatamente nesse direito elementar e sagrado à divergência, à oposição e à crítica.

Oposição é próprio e exclusivo de regimes democráticos. Aliás, a oposição cumpre um papel fundamental para aprofundar as democracias, na medida em que vigia, pressiona e impõe limites aos governantes de plantão.


Nas ditaduras, opositores são igualados a inimigos e, como tal, condenados a perseguição e ao extermínio.


A corrupção é um fenômeno comum a ambos os regimes, com uma diferença: somente nas democracias, a corrupção tem chance de ser investigada, denunciada e enfrentada.


Vivemos hoje no Brasil uma encruzilhada civilizatória: manter e aperfeiçoar o regime democrático ou tomar o desvio para o autoritarismo.


Um capitão e um general da reserva oferecem ao país a guinada autoritária como “solução” para a crise econômica e social.


Nem mesmo ganharam as eleições e já começaram a tratar os concorrentes e os indesejáveis como inimigos a serem abatidos, não apenas em sentido figurado.


Insinuam autogolpe, sugerem o fuzilamento dos adversários, colocam na conta de mães e avós o surgimento de “desajustados”, naturalizam a desigualdade entre homens e mulheres, incitam a agressão a homossexuais, propõem armar a população para diminuir a violência, reforçam o preconceito contra negros e índios.

Nem mesmo ganharam a eleição...


Não, eu não estou exagerando.


Não, isso não é mimimi.


Nem mesmo ganharam a eleição...


Não, ninguém tem o direito de relativizar ou ignorar o conteúdo da mensagem do capitão e do general que querem deixar a reserva para assumir a titularidade do comando da nação brasileira.

Nem mesmo ganharam a eleição...


Em 24 anos de oposição aos governos tucanos no Pará, não fui perseguido ou caçado.

Posso ter sido eventualmente tratado como indesejável, mas não fui tratado como inimigo a ser silenciado ou eliminado.


Nessa encruzilhada civilizatória que experimentamos, se o país optar pelo desvio autoritário, eu não tenho dúvida de que todos os que criticarem ou se opuserem ao governo serão perseguidos implacavelmente, como é da índole de qualquer regime autoritário.


Corremos o risco de acusações falsas, de flagrantes forjados, de “provas” plantadas, como é da natureza de regimes autoritários.


Mas não pensem que os regimes autoritários se contentam em perseguir e eliminar opositores.


Não, a coisa não para por aí.


Regimes autoritários não se deixam investigar por juízes e promotores.

Regimes autoritários não se deixam fiscalizar pelo legislativo ou por órgãos de controle.

Regimes autoritários não admitem imprensa livre.

Regimes autoritários não toleram sindicatos, tampouco reivindicações trabalhistas.


Regimes autoritários não gostam de urna, a não ser a urna funerária reservada para aos inimigos.

Nem mesmo ganharam a eleição.


Imagem: Pixabay Creative Commons

 
 
 

Comentários


  • Facebook Black Round
  • Google+ Black Round
  • Tumblr Black Round
bottom of page