A morte como política de governo
- Charles Alcantara
- 16 de nov. de 2018
- 2 min de leitura
Escrevo com seriedade. Às vezes, com mais sisudez, outras, com mais suavidade.
Não costumo empregar sarcasmo em meus textos. Fi-lo, às vezes, como forma de aliviar a tensão ou até mesmo a raiva que me rondava.
Acontece que a raiva jamais será a minha conselheira. É por isso que eu a inoculo com doses de ironia sempre que ela se acerca de mim. É, porque não é o amor, mas a ironia, o meu antídoto para a raiva.
Foi o caso recente da saída do governo cubano do Mais Médicos. Diante da raiva provocada pela farsa da narrativa bolsonariana, recorri a textos irônicos.
Domada a raiva, recobro o meu estilo para voltar ao tema.
O fato: milhares de municípios e milhões de brasileiros serão privados de assistência médica, em razão da decisão do governo cubano de retirar os seus profissionais do Mais Médicos.
A narrativa sobre as razões que deram ensejo à saída dos médicos cubanos está em disputa num ambiente político totalmente conflagrado.
Ater-me-ei à narrativa bolsonariana, porque, afinal, as declarações do presidente eleito estão na raiz desse triste desfecho.
Num esforço grandioso para dar crédito às últimas declarações de Bolsonaro, digamos que o presidente eleito estivesse sinceramente preocupado com as condições salariais e humanitárias dos médicos cubanos, e que, além disso, tivesse razoáveis dúvidas da capacidade e até mesmo da regularidade profissional dos referidos médicos.
Numa hipótese extremamente generosa (dada toda a trajetória política de Bolsonaro) de que as preocupações sejam verdadeiras, resta saber.
1º) O presidente eleito não tinha a obrigação de manifestar-se com prudência num caso de tamanha sensibilidade?
2º) Se, de fato, Bolsonaro estava preocupado com o salário e as condições de trabalho dos médicos, não poderia anunciar a pretensão de dialogar com a sua equipe e com o próprio governo cubano sobre os termos e condições da Cooperação?
3º) Não poderia, por exemplo, acenar com o aprimoramento do Mais Médicos (porque, afinal, tudo pode ser aprimorado), de modo a melhorar as condições dos profissionais?
4º) Em algum momento, Bolsonaro levou em consideração a opinião, o sentimento e as necessidades dos milhões de brasileiros atendidos pelo Programa, que, aliás, conta com elevadíssimos índices de aprovação?
5º) Em algum momento, Bolsonaro levou em consideração a opinião dos prefeitos, muitos dos quais à frente de municípios que passaram a contar pela primeira vez com um médico permanente?
Não, Bolsonaro não levou nada disso em conta!
Bolsonaro, aliás, não se deu conta de que foi eleito para presidir um dos maiores países do planeta.
Bolsonaro não se deu conta de que não é mais um deputado, que pode sair por aí falando bobagens ou cagando verbos e bravatas.
Bolsonaro não tem mais o direito de ser medíocre, como foi ao longo de sua trajetória de quase trinta anos como deputado. Não que deputado tenha esse direito, mas há de se convir que um deputado medíocre não causa o mesmo estrago que um presidente medíocre.
As condições de contratação em vigor no Mais Médicos foram repactuadas em 2016, já durante o governo Temer, e confirmadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Essas condições podem ser modificadas?
Claro que sim!
Mas Bolsonaro preferiu ser Bolsonaro, aquele que, de acordo com as suas próprias palavras, aprendeu a matar. E Bolsonaro já começou a “matar”, mesmo antes de tomar posse.
O governo ainda não começou de direito, mas a morte não tem tempo a perder.




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