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A estética dos “limpinhos”

  • Foto do escritor: Charles Alcantara
    Charles Alcantara
  • 3 de out. de 2018
  • 2 min de leitura

Testemunhei a indignação de um amigo diante da foto de uma mulher com trajes sumários que trazia no corpo a pintura “#EleNão”.

Em tempos de tantas fraudes e tantos disseminadores de boatos nas redes sociais, nem sei se a imagem é verdadeira.

Pouco importa se é falsa ou verdadeira. É de indignação que eu quero falar.

A indignação é um sentimento personalíssimo que fala muito sobre os valores do seu portador e nada sobre o seu alvo.

De um lado, temos um candidato à presidência da República que acha justo que a mulher ganhe menos que o homem, porque engravida; que tem por ídolo um torturador; que mede a massa corporal de um negro em arrobas; que divide as mulheres entre as que merecem e as que não merecem ser estupradas; que recomenda espancar os filhos para corrigir tendência homossexual; que propõe ensinar as crianças a atirar.

De outro, temos uma mulher com o corpo pintado como forma de protesto.

Há quem fique indignado com o primeiro.

Há quem fique indignado com a segunda.

Há quem considere o primeiro uma pessoa sincera, que diz o que pensa, um mito.

Há quem considere a segunda uma despudorada, depravada, agressora da “tradicional família brasileira”.

Há indignação para todos os gostos.

Há valores para todos os gostos.

O dito amigo que me inspirou a escrever este texto, não suporta a ideia de um país em que uma mulher pinte o corpo como forma de protesto.

Conheço e até convivo com pessoas assim, viajadas, de gosto refinado, assépticas, alvas, de palavras polidas e gestos contidos, bem nascidas.

“Gente de bem” capaz de aceitar e até praticar as mais ignóbeis ilicitudes e maldades, mas que não tolera essa gente fétida e depravada que emporcalha as ruas e agride os olhos e os ouvidos da, mais uma vez, “tradicional família brasileira”.

Para essa “gente de bem”, enfim, é chegada a hora de limpar o país desse, como diz o tal amigo, “bando de desajustados, depravados, neuróticos, desordeiros e vagabundos”.

Deus (veja como a “gente de bem” apropriou-se até de Deus) há de livrar o Brasil desse bando.

Lasquei-me!


Charles Alcantara


 
 
 

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